Sobre o início, o caminho e as perguntas.

Já é quase carnaval e 2017 está em vistas de começar (sim, uma das coisas que aprendemos tendo empresa é que o ano realmente só começa depois do carnaval, triste verdade, Brasil!). Todo começo carrega consigo uma espécie de pausa, de limbo, de tempo entre o fechamento do ciclo anterior e o início ritmado do próximo.

Convenhamos que a vida é cheia de semáforos pelo caminho. Eu, que sempre fui uma adoradora fiel dos rituais, hoje me dou conta de que cada parada, cada contagem regressiva, cada ondinha pulada, cada vela apagada, cada sonho realizado, nada mais é do que um convite (às vezes nada elegante) da vida à renovação das perguntas que precisamos nos fazer, se queremos continuar vivos e crescendo. 

Somos ensinados, desde muito cedo, a responder. É assim que começamos a interagir com o mundo. Não é culpa das gerações anteriores, com eles também foi assim, faz parte da adaptação natural (Será?) do ser humano ao mundo, ao convívio social, à expectativa dos outros e de nós mesmos em relação a quem somos e o que queremos ser-questão bastante essencial pra ser perguntada desde tão cedo, né? - Carimbada com a mais cruel das perguntas: O que você quer ser quando crescer?

Pronto, eis a mais precoce das questões e desafios que enfrentamos na jornada da vida. O mundo nos faz pensar que existe uma resposta certa pra essa pergunta. E a gente passa o resto da vida tentando responder. Passamos por uns bons anos entre Ensinos Fundamental e Médio em busca de algo que nos confirme que a decisão tomada aos 16 (sim, essa é a segunda crueldade) é a melhor escolha. Entramos então na faculdade, através de uma prova que mede qualquer coisa, menos o que aprendemos até ali, e passamos outros bons anos em busca do título, do grau, do nome daquela profissão, que vai andar junto conosco quando formos novamente responder sobre quem somos. E até aí, quantas vezes ecoa aquela vozinha, nem tão forte que se queira gritar, nem tão fraca que se possa esquecer: O que você quer ser quando crescer?

Uma pausa. Um piscar de olhos. Um suspiro. Chegou a formatura. Por excelência, e na maioria dos casos, é nessa hora que recebemos o aval da sociedade para exercer aquela profissão. Sendo assim, parece que crescemos, né? E por que então a maldita pergunta ainda nos persegue? Ou pior, toma uma forma ainda mais relevante. 

O que você queria ser quando crescer, seguida de um: “E aí, conseguiu?”.

Eu, particularmente, aceitei o fato de que algumas respostas provavelmente roubariam a graça da jornada. Seriam uma espécie de spoilerdavidareal e fariam com que a gente perdesse o interesse em persistir pra conhecer o fim (e o meio) da história.  Nas minhas páginas entrou uma empresa de estágios. E, se você leu até aqui, deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com mercado de trabalho, certo? 

Tem tudo. 

Ser adulto traz consigo uma pilha de responsabilidades, mas traz também uma outra, de igual tamanho, de possibilidades. Cabe a quem está fazendo escolhas a aceitação da pausa. Uma busca verdadeira (mas já aviso, meio dolorida) pela verdade em si mesmo. Cabe, a quem ousar, a aventura de se fazer novas perguntas e permitir que simplesmente existam aquelas que não podem ser respondidas. Pra isso tem que ter coragem, flexibilidade, capacidade de resolver problemas complexos (e de assumir os que não conseguimos resolver).

Por quê tudo isso vira requisito em vaga de estágio e emprego? Porque é difícil mesmo de encontrar gente que se abra mais pras perguntas do que pras certezas. 

O que você quer ser quando crescer? Se desafie.

Renata Gastal

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